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O Sono na Mitologia, na Arte e na Medicina: Uma Jornada pelo Inconsciente Humano

Do deus Hipnos à paralisia do sono, passando por Dalí e Rousseau: descubra como o sono moldou culturas, filosofias e a ciência moderna.

O sono que desce sobre mim, O sono que desce sobre mim, O sono mental que desce fisicamente sobre mim, O sono universal que desce individualmente sobre mim — Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir, O sono da vontade de dormir, O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: É o sono da soma de todas as desilusões, É o sono da síntese de todas as desesperanças, É o sono de haver mundo comigo lá dentro Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. O sono que desce sobre mim É contudo como todos os sonos. O cansaço tem ao menos brandura, O abatimento tem ao menos sossego, A rendição é ao menos o fim do esforço, O fim é ao menos o já não haver que esperar. Há um som de abrir uma janela, Viro indiferente a cabeça para a esquerda Por sobre o ombro que a sente, Olho pela janela entreaberta: A rapariga do segundo-andar de defronte Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. De quem?, Pergunta a minha indiferença. E tudo isso é sono. Meu Deus, tanto sono!… Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)
Sleep (1937), Salvador Dalí — rosto desencarnado suspenso por muletas, símbolo do sono como suspensão da identidade
Sleep, Salvador Dalí, 1937. Óleo sobre tela. Fondation Gala-Salvador Dalí, Figueres.

I. Hipnos, Morfeu e a Noite dos Deuses: o Sono nas Mitologias

Antes de ser objeto da ciência, o sono foi território dos deuses. Na mitologia grega, Hipnos (Ὕπνος) era filho de Nix, a Noite, e irmão gêmeo de Tânatos — a Morte. A proximidade não era acidental: para os gregos, adormecer era uma forma branda de morrer, uma diária descida ao submundo. Hipnos habitava nas profundezas da Terra, junto ao rio Lete, o rio do esquecimento. Seu filho mais famoso era Morfeu, deus dos sonhos, capaz de assumir forma humana e visitar os adormecidos com mensagens dos Olimpianos. Homero, na Ilíada, descreve Hipnos adormecendo o próprio Zeus a pedido de Hera — nenhum poder, nem mesmo o dos deuses, escapava ao sono. Em outras tradições, o peso é semelhante. Na mitologia nórdica, Valkyrias carregavam guerreiros mortos para Valhalla enquanto os vivos dormiam, vulneráveis ao mundo espiritual. Na tradição hindu, o estado de susupti — sono profundo sem sonhos — é descrito nos Upanishads como o mais próximo do Brahman, o absoluto, que o ser humano pode alcançar em vida. No Islã medieval, o sonho (ru’ya) era tido como um terço da profecia. O padrão se repete: o sono é a fronteira permeável entre o humano e o divino, entre a consciência e o inefável.

II. Da Filosofia às Ciências Sociais: o Sono como Problema do Ser

Platão, no Timeu, sugere que a alma, durante o sono, liberta-se parcialmente do corpo e acessa formas mais puras de conhecimento. Aristóteles discordou: em Do Sono e da Vigília, propôs uma explicação fisiológica — o sono seria resultado do calor gerado pela digestão subindo ao cérebro, esfriando e induzindo o repouso. Aqui, pela primeira vez, o sono sai do domínio do sagrado e entra no da investigação racional. René Descartes, no século XVII, usa o sono como argumento epistemológico central nas Meditações: como posso distinguir o sonho da vigília? O problema ressurge em Wittgenstein, em Husserl — o sono desafia a ideia de que temos acesso privilegiado à realidade. Nas ciências sociais, o sono foi por muito tempo negligenciado como objeto de estudo. Foi Matthew Wolf-Meyer, em The Slumbering Masses (2012), quem denunciou como o capitalismo industrial colonizou o sono humano: o relógio de ponto substituiu o ritmo circadiano natural, e o sono polifásico — comum por séculos — foi paulatinamente destruído pela lógica da produtividade. Jonathan Crary, em 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep (2013), vai mais longe: o sono é o último bastião da resistência humana ao mercado. Uma criatura que dorme oito horas por dia “desperdiça” um terço de sua vida para o capital. O sono, portanto, é também político.

III. O Sono na Arte: da Pesadelo Romântico ao Sonho Surrealista

As três obras que acompanham este artigo formam, juntas, uma arqueologia visual do sono humano — e cada uma antecipou, à sua maneira, algo que a ciência só descreveria séculos depois.
The Nightmare (1781), Henry Fuseli — íncubo sobre mulher adormecida, representação pictórica da paralisia do sono e suas alucinações hipnagógicas
The Nightmare, Henry Fuseli, 1781. Óleo sobre tela, 101,6 × 127 cm. Detroit Institute of Arts.
Henry Fuseli pintou The Nightmare em 1781, no auge do Romantismo. Uma mulher desmaia sobre a cama em posição de abandono total; sobre seu peito senta um íncubo — demônio da tradição germânica que se acreditava pressionar o peito dos adormecidos, causando sufocamento e terror. Ao fundo, um cavalo espectral de olhos brancos emerge das sombras. O que Fuseli representou, sem saber, foi aquilo que hoje chamamos de paralisia do sono com alucinações hipnagógicas — um fenômeno neurológico documentado que atravessa culturas e séculos sob diferentes nomes: o kanashibari japonês, a Old Hag canadense, o Pisadeira brasileiro.
The Dream (1910), Henri Rousseau — mulher nua em divã rodeada de selva tropical sob lua cheia, evocando o inconsciente freudiano
The Dream, Henri Rousseau, 1910. Óleo sobre tela, 204,5 × 298,5 cm. Museum of Modern Art (MoMA), Nova York.
Henri Rousseau pintou The Dream em 1910, sua última grande obra. Uma mulher nua repousa num divã vitoriano em plena selva tropical — anacronismo deliberado que dissolve os limites entre civilização e natureza, entre vigília e sonho. A lua cheia ilumina leões, pássaros exóticos e um músico encantador de serpentes. Freud publicara A Interpretação dos Sonhos apenas dez anos antes, e o zeitgeist permeava a arte mesmo sem contato direto. Salvador Dalí era freudiano declarado. Sleep (1937) representa um rosto sem corpo sustentado por muletas finíssimas — se uma ceder, o sono acaba. Dalí praticava o que chamava de “método paranoico-crítico”: induzia estados hipnagógicos segurando uma chave sobre um prato de metal. Ao adormecer, a chave caía, o barulho o acordava, e ele registrava as imagens do limiar. A obra é, ao mesmo tempo, autorretrato e fenomenologia: o sono como estado de suspensão da identidade, onde o eu se desfaz.

IV. A Medicina do Sono: o que a Ciência Descobriu

A compreensão científica do sono começou a se consolidar em 1953, quando Nathaniel Kleitman e Eugene Aserinsky descobriram o sono REM (Rapid Eye Movement) — o estágio em que a maioria dos sonhos ocorre. Foi uma revolução: o sono deixou de ser ausência de vida e tornou-se estado ativo do cérebro. Hoje sabemos que o sono é dividido em ciclos de aproximadamente 90 minutos, alternando entre quatro estágios:
  • N1 — Sonolência: transição entre vigília e sono, com presença de alucinações hipnagógicas.
  • N2 — Sono leve: redução da frequência cardíaca e temperatura. Fusos do sono facilitam a consolidação da memória.
  • N3 — Sono profundo: ondas delta, liberação do hormônio do crescimento (GH) e ativação máxima do sistema glinfático.
  • REM — Sono dos sonhos: atonia muscular, movimentos oculares rápidos, consolidação emocional da memória e criatividade.
Durante o sono profundo, o sistema glinfático do cérebro aumenta sua atividade em até 60%, eliminando proteínas neurotóxicas como a beta-amiloide — associada ao Alzheimer. Não dormimos apesar do dia. Dormimos por causa dele.

O que a privação de sono faz ao organismo

Dormir menos de 6 horas por noite cronicamente está associado a:
  • Aumento de 48% no risco de doenças cardiovasculares
  • Comprometimento imunológico comparável ao de quadros infecciosos crônicos
  • Prejuízo cognitivo equivalente a 1,5‰ de álcool no sangue após 17–19h de vigília contínua
  • Aumento da resistência à insulina e maior risco de diabetes tipo 2
  • Elevação do cortisol por desregulação do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal)

A paralisia do sono — Fuseli tinha razão

O fenômeno que Fuseli pintou em 1781 tem nome médico: paralisia do sono isolada recorrente. Ocorre na transição entre REM e vigília, quando a atonia muscular do REM persiste enquanto a consciência retorna. A prevalência estimada é de 7,6% da população geral ao longo da vida, chegando a 28% em estudantes universitários. As alucinações — frequentemente descritas como presença ameaçadora, pressão no peito, incapacidade de gritar — são universais e transculturais. O que ele pintou como visão demoníaca, a neurociência explica como hiperativação da amígdala num contexto de paralisia motora.

V. O Sono como Condição Humana

Álvaro de Campos — heterônimo de Fernando Pessoa e alter-ego de sua modernidade ansiosa — escreveu sobre o sono não como descanso, mas como capitulação: “É o sono da soma de todas as desilusões.” Para ele, o cansaço tem ao menos brandura; a rendição, ao menos o fim do esforço. O sono não é escape — é a acumulação do mundo dentro de si, sem que se tenha pedido. É curioso que a medicina moderna chegue a conclusão próxima: o sono não é ausência. É o momento em que o organismo processa, consolida, repara e prepara. O cérebro que dorme não descansa — ele trabalha de outro modo, em outra linguagem. Das muletas de Dalí ao íncubo de Fuseli, da selva de Rousseau às ondas delta do EEG, o sono permanece o que sempre foi: o território mais íntimo e mais misterioso da existência humana. O único lugar onde, por algumas horas, somos simultaneamente nós mesmos e outra coisa.

Referências

Mitologia e História Cultural

  • Hesiod. Theogony. Trad. M. L. West. Oxford University Press, 1988.
  • Homer. Iliad. Livro XIV (“The Deception of Zeus”). Trad. Richmond Lattimore. University of Chicago Press, 1951.
  • Obeyesekere, G. The Work of Culture: Symbolic Transformation in Psychoanalysis and Anthropology. University of Chicago Press, 1990.
  • Shulman, D.; Stroumsa, G. G. (eds.). Dream Cultures: Explorations in the Comparative History of Dreaming. Oxford University Press, 1999.

Filosofia

  • Aristóteles. Do Sono e da Vigília (De Somno et Vigilia). In: Parva Naturalia. Trad. W. S. Hett. Harvard University Press (Loeb Classical Library), 1936.
  • Descartes, R. Meditações sobre Filosofia Primeira. Trad. Fausto Castilho. Editora da Unicamp, 2004.
  • Platão. Timeu. Trad. Maria José Figueiredo. Instituto Piaget, 2004.

Ciências Sociais

  • Crary, J. 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep. Verso Books, 2013.
  • Wolf-Meyer, M. The Slumbering Masses: Sleep, Medicine, and Modern American Life. University of Minnesota Press, 2012.
  • Williams, S. J. Sleep and Society: Sociological Ventures into the (Un)known. Routledge, 2005.

Medicina e Neurociência

  • Aserinsky, E.; Kleitman, N. Regularly occurring periods of eye motility, and concomitant phenomena, during sleep. Science, v. 118, n. 3062, p. 273–274, 1953.
  • Iliff, J. J. et al. A paravascular pathway facilitates CSF flow through the brain parenchyma and the clearance of interstitial solutes, including amyloid β. Science Translational Medicine, v. 4, n. 147, 2012.
  • Sharpless, B. A.; Barber, J. P. Lifetime prevalence rates of sleep paralysis: a systematic review. Sleep Medicine Reviews, v. 15, n. 5, p. 311–315, 2011.
  • Cappuccio, F. P. et al. Sleep duration and all-cause mortality: a systematic review and meta-analysis of prospective studies. Sleep, v. 33, n. 5, p. 585–592, 2010.
  • Walker, M. Why We Sleep: Unlocking the Power of Sleep and Dreams. Scribner, 2017.
  • Rechtschaffen, A.; Kales, A. (eds.). A Manual of Standardized Terminology, Techniques and Scoring System for Sleep Stages of Human Subjects. UCLA Brain Information Service, 1968.

Arte e Literatura

  • Campos, Álvaro de. “O sono que desce sobre mim”. In: Pessoa, F. Obra Poética. Aguilar, 1960.
  • Kemp, M. (ed.). The Oxford History of Western Art. Oxford University Press, 2000.
  • Néret, G. Salvador Dalí: 1904–1989. Taschen, 2006.
  • Rubin, W. (ed.). “Primitivism” in 20th Century Art. Museum of Modern Art, 1984. [Sobre Rousseau]
  • Schiff, G. Johann Heinrich Füssli: 1741–1825. Prestel, 1975. [Sobre Fuseli]

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