
Estou no estágio de geriatria e, honestamente, vem sendo uma grande surpresa e confesso que ainda estou aprendendo o que geriatria significa na prática. Imaginava ver pacientes idosos com hipertensão descompensada, quedas, polifarmácia. O que encontrei foi muito além disso, muito mesmo.
Esta semana enquanto me preparava para acompanhar mais um dia de ambulatório, passei por alguns pacientes e um deles, especialmente, me chamou a atenção. Um senhor de aparência saudável, extremamente elegante que eu mais tarde teria a honra de conhecer melhor.
O Paciente: Um Cirurgião Torácico com Anomia
Quando ele entrou na sala, entendi imediatamente por que me fisgara. Era um homem de postura impecável, ombros eretos e mãos que pareciam sempre em estado de prontidão. Quarenta anos de carreira, apresentou-se. Tinha operado centenas de pacientes com doenças dos pulmões. Tinha treinado residentes. Tinha salvado vidas que eu ainda mal consigo imaginar salvar.
E agora estava sentado naquela cadeira, diante da equipe de geriatria, com uma queixa que me desconcertou quando a ouvi pela primeira vez: “Estou perdendo as palavras. Sei o que quero dizer, mas a palavra não vem.”
Por dentro estava tentando entender o que exatamente ele estava descrevendo.
O Que É Anomia?
Anomia é a dificuldade de recuperar palavras específicas — especialmente nomes e substantivos — mesmo quando a pessoa sabe exatamente o que quer dizer. É como se o conceito existisse na mente com total clareza, mas a “etiqueta verbal” que o representa tivesse sumido temporariamente.
Fui perguntar ao professor staff após a consulta: isso é normal? “Todos temos aquele momento de ‘está na ponta da língua’,” ele me explicou. “O que diferencia a anomia patológica é a frequência, a progressão e o impacto. Se começa a acontecer com nomes que a pessoa conhece bem, palavras do cotidiano da profissão, e vai piorando — aí é sinal de alerta.”
Para aquele cirurgião — alguém cuja vida profissional inteira foi construída sobre a precisão da linguagem técnica, sobre saber o nome exato de cada estrutura anatômica, de cada complicação possível — a anomia não era uma curiosidade clínica abstrata. Era uma traição do próprio cérebro.
Alzheimer em Fase Inicial — O Que a Ciência Explica
Depois da consulta, me sentei e fui pesquisar. Precisava entender o que estava acontecendo no cérebro daquele homem. O que segue é o que aprendi — e tento explicar aqui da forma que eu mesmo precisei que me explicassem.
O Que É a Doença de Alzheimer?
A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência — um termo que descreve o declínio progressivo de funções cognitivas como memória, linguagem e raciocínio, a ponto de interferir nas atividades do dia a dia. É uma doença neurodegenerativa: os neurônios (células nervosas) do cérebro são destruídos progressivamente ao longo dos anos.
O que confunde muita gente — e me confundiu também — é que a doença começa décadas antes dos sintomas aparecerem. As alterações cerebrais podem estar presentes 15 a 20 anos antes do diagnóstico clínico. O que chamamos de “início dos sintomas” é, na verdade, o ponto em que o cérebro não consegue mais compensar o dano acumulado.
O Papel das Proteínas Amilóides no Cérebro
No centro do Alzheimer estão duas proteínas que se comportam de forma anômala: o amilóide-beta e a proteína tau.
O amilóide-beta é um fragmento de proteína produzido naturalmente pelo metabolismo cerebral. Em condições normais, é produzido e eliminado em equilíbrio contínuo. No Alzheimer, esse equilíbrio quebra: o amilóide-beta se acumula no espaço entre os neurônios e forma estruturas chamadas placas senis — aglomerados que ativam inflamação local, perturbam a comunicação entre células e, com o tempo, contribuem para a morte neuronal.
Em paralelo, a proteína tau — que em condições normais sustenta a estrutura interna dos neurônios, como um “esqueleto celular” — se desestabiliza e passa a se acumular dentro das células em emaranhados que destroem o neurônio por dentro.
O professor de resumiu assim em aula: “Pensa num prédio sendo corroído por dentro e por fora ao mesmo tempo. As placas atacam por fora; os emaranhados, por dentro.”
Por Que os Primeiros Sinais São Tão Sutis?
O cérebro tem uma capacidade extraordinária de compensação. Quando neurônios em uma região começam a ser perdidos, outras redes assumem parcialmente a função. É por isso que os primeiros sinais do Alzheimer costumam ser vagos — e frequentemente descartados como “estresse” ou “cansaço normal da idade”.
Os primeiros sinais mais comuns incluem:
- Dificuldade de lembrar nomes (anomia) ou palavras específicas
- Esquecimentos de eventos recentes — conversas, compromissos, onde guardou objetos
- Perda de fio do raciocínio no meio de tarefas complexas que antes eram automáticas
- Mudanças sutis de personalidade ou humor, notadas principalmente pela família
- Dificuldade com orientação em locais conhecidos, em casos mais avançados
O ponto-chave que aprendi: esquecimento ocasional faz parte do envelhecimento normal. O que diferencia é a frequência, a progressão e o impacto real na rotina.
O Caminho para o Diagnóstico
Quando Procurar um Especialista?
Procure um médico — clínico geral, neurologista ou geriatra — quando os esquecimentos forem frequentes, progressivos, ou quando uma pessoa próxima começar a notar mudanças no comportamento, na memória ou na linguagem. Um único episódio de esquecimento não é sinal de alarme. Um padrão que se repete e piora ao longo de semanas ou meses merece avaliação.
No Brasil, o caminho pelo SUS começa na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O clínico geral faz a triagem inicial e pode encaminhar para neurologistas ou geriatras em ambulatórios de referência — gratuito e acessível.
Quais Exames São Usados para Diagnosticar o Alzheimer?
O diagnóstico de Alzheimer é clínico e complementar — não existe um único exame que, sozinho, confirme a doença. O processo envolve:
- Avaliação clínica e neuropsicológica: entrevista detalhada com o paciente e familiar, aplicação de testes cognitivos como o Miniexame do Estado Mental (MEEM) e avaliações mais completas quando necessário
- Ressonância magnética do encéfalo: para identificar alterações características nas estruturas cerebrais e descartar outras causas tratáveis (tumores, sangramentos, acidentes vasculares)
- Exames laboratoriais: para excluir causas reversíveis de declínio cognitivo, como hipotireoidismo ou deficiência de vitamina B12
- Biomarcadores avançados (em centros de referência): análise do líquor cefalorraquidiano para dosagem de proteínas amilóide e tau; PET scan amilóide para visualizar depósitos no cérebro
O Minimental e a Surpresa da Equipe
Quando chegamos à parte do MEEM que avalia a coordenação motora — o paciente precisa dobrar um papel seguindo um comando verbal —, aconteceu algo que ficou gravado na minha memória. As mãos daquele cirurgião executaram o movimento com uma precisão que fez os residentes pararem para olhar. Sem hesitação, sem tremor. A coordenação motora fina, preservada por décadas de microcirurgias torácicas, era impressionante. Houve até um comentário em voz baixa na sala: “Trinta anos de cirurgia não se apagam.”
A pontuação final ficou fora dos parâmetros normais para sua escolaridade.
Aprendi ali que os números nos testes de triagem são uma janela — mas não a janela inteira.
O Impacto em Profissionais de Alta Performance
Médicos Também Adoecem: a Dificuldade de Reconhecer em Si Mesmo
A professora de geriatria fala de um fenômeno que ela chama de “médico-paciente relutante”: profissionais de saúde tendem a atrasar a busca por ajuda mais do que a população geral. Há o medo do julgamento dos colegas, as implicações para o exercício profissional, e uma crença implícita de que deveriam ser capazes de lidar com o próprio adoecimento de forma diferente.
Para profissionais cuja identidade está entrelaçada com a capacidade cognitiva — cirurgiões, músicos, escritores, acadêmicos —, os primeiros sinais de declínio cognitivo tocam não só na saúde, mas na essência do que acreditam ser. A pergunta que surge não é “o que tenho?”, mas “ainda posso continuar exercendo minha profissão?”
Existe também o estigma em torno das demências. Na população geral já é considerável. Em profissionais de alta performance, esse peso é ainda maior. Nomear, reconhecer e enfrentar esse preconceito é parte do cuidado — e uma conversa que a equipe teve abertamente com aquele paciente naquele dia.
A esposa dele estava presente em parte da consulta. Observei o olhar dela — mistura de preocupação contida e orgulho genuíno. Ela ainda o via como o médico que ele tinha sido por décadas. E entendi, observando aquela cena, que parte do trabalho da geriatria é ajudar a família inteira a navegar dois papéis simultâneos: o familiar que sempre foi, e o cuidador que pode precisar ser.
A Família: Negação, Luto Antecipado e Novos Papéis
O professor descreveu como as famílias frequentemente percorrem fases previsíveis diante de uma suspeita de demência:
- Negação vem primeiro: “Ele só está cansado”, “É o estresse da aposentadoria”. É um mecanismo de defesa legítimo — não má-vontade ou falta de cuidado.
- Superproteção vem em seguida: responder pelo paciente quando ele ainda tem condições de responder, tomar decisões por quem ainda tem capacidade decisional. Bem-intencionada, mas pode acelerar a perda de autonomia.
- Reorganização é o objetivo: redistribuir papéis, adaptar rotinas, buscar apoio profissional para o núcleo familiar.
O desgaste do cuidador principal — frequentemente o cônjuge ou um filho adulto — é um problema silencioso e grave. Segundo dados brasileiros, a sobrecarga dos cuidadores de pacientes com demência está associada a altas taxas de depressão, ansiedade e adoecimento físico. Cuidar de quem cuida também é medicina.
O Que Fazer se Você ou Alguém Próximo Apresenta Esses Sinais
Após aquela consulta, um dos residentes me mostrou como orientar as famílias. Esta é a síntese do que aprendi:
Se você percebe sinais de alerta:
- Anote os episódios: quando acontecem, com que frequência, qual é o impacto real na rotina
- Procure um médico — na UBS do bairro, com clínico geral, neurologista ou geriatra
- Não espere os sintomas ficarem “mais evidentes” — no Alzheimer, o diagnóstico precoce abre mais opções de intervenção
- Inclua um familiar de confiança na consulta, se possível — ele pode fornecer informações que o próprio paciente não percebe
Recursos de Apoio no Brasil (ABRAz, SUS, CVV)
📋 Onde buscar ajuda no Brasil:
- ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer): grupos de apoio, informação e acolhimento para familiares e cuidadores em todo o país — abraz.org.br
- SUS: consultas com neurologistas e geriatras nas UBS e ambulatórios de referência — caminho gratuito e acessível
- Farmácia Popular: medicamentos para Alzheimer disponíveis com subsídio federal
- CVV (Centro de Valorização da Vida): ligue 188, disponível 24 horas, gratuito — para cuidadores e familiares que enfrentam sobrecarga emocional, o apoio psicológico é parte essencial do cuidado
Reflexão Final — Uma Perspectiva de Quem Cuida
Saí do hospital naquela tarde diferente de como entrei.
Estava no estágio de geriatria esperando aprender protocolos, escalas, fluxogramas. Aprendi também — e talvez principalmente — o que significa a medicina quando o paciente é um colega. Quando as mãos que estão sendo avaliadas já guiaram bisturis por décadas. Quando o homem que responde calmamente às perguntas também conhece de cor todas as implicações de cada resposta.
A professora disse algo no final da reunião de equipe que anotei no caderno: “A geriatria não trata doenças. Trata pessoas que envelhecem com doenças.”
É diferente. Os primeiros sintomas do Alzheimer que observamos naquele cirurgião — anomia, queixa cognitiva subjetiva, MEEM na fronteira do significativo — eram reais e preocupantes. Mas o paciente era mais do que seus sintomas. Era trinta anos de expertise acumulada, vidas salvas, residentes formados.
Com diagnóstico precoce, acompanhamento adequado e as opções terapêuticas disponíveis — que avançaram nos últimos anos —, é possível manter qualidade de vida por muito tempo. Preservar o que importa. Continuar sendo quem se é.
Essa possibilidade, aprendi naquele estágio, é o que move a medicina preventiva. E foi por isso que entrei na geriatria achando que seria uma rotação “menos empolgante” — e saí querendo entender muito mais.
Conheça o Minimental
Perguntas Frequentes
O que é anomia e por que ela aparece no Alzheimer?
Anomia é a dificuldade de recuperar palavras específicas — nomes, substantivos — mesmo quando a pessoa sabe exatamente o que quer dizer. No Alzheimer, ela resulta da degeneração das redes corticais responsáveis pelo acesso ao vocabulário, especialmente no lobo temporal. É frequentemente uma das primeiras manifestações cognitivas da doença.
O Minimental negativo exclui Alzheimer?
Não. O MEEM é uma ferramenta de triagem com boa sensibilidade para déficits moderados a graves, mas pode não capturar comprometimentos leves — especialmente em pessoas com alta escolaridade, fenômeno chamado de “efeito teto”. Um resultado dentro da normalidade não exclui comprometimento cognitivo inicial, e queixas persistentes merecem investigação complementar.
O Alzheimer pode afetar pessoas jovens ou muito ativas intelectualmente?
Sim. Embora seja mais comum acima dos 65 anos, existem formas de início precoce antes dessa idade. E alta atividade intelectual não é proteção absoluta — pode compensar os sintomas por mais tempo, o que, paradoxalmente, pode atrasar o diagnóstico.
Quais tratamentos estão disponíveis hoje?
Existem medicamentos que aliviam sintomas — incluindo as classes dos inibidores de colinesterase e dos antagonistas de receptores NMDA —, disponíveis pelo SUS e Farmácia Popular. Novas imunoterapias antiamilóides, aprovadas recentemente nos EUA, representam o primeiro avanço real na modificação do curso da doença, mas ainda aguardam aprovação no Brasil. Pergunte ao médico especialista sobre as opções mais adequadas para cada caso.
Como apoiar um familiar com suspeita de demência sem tirar sua autonomia?
Deixe que ele participe das conversas e decisões enquanto tiver capacidade para isso. Evite responder por ele na consulta. Busque orientação de equipe multiprofissional. E lembre: cuidar do cuidador também é essencial — grupos de apoio da ABRAz e, se necessário, apoio emocional pelo CVV (188) são recursos concretos e gratuitos.
Este artigo foi produzido com base nas Diretrizes da Associação Brasileira de Neurologia (ABN) para diagnóstico e tratamento das demências; nos critérios AT(N) do National Institute on Aging / Alzheimer’s Association (NIA-AA, 2018); no Relatório da Comissão Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidado em Demência (2020); nos estudos sobre imunoterapias antiamilóides publicados no New England Journal of Medicine (2023–2024); e nas diretrizes do Ministério da Saúde para atenção à saúde da pessoa idosa no SUS. Redigido em perspectiva de estudante de medicina em estágio de geriatria hospitalar. As informações têm finalidade educativa e não substituem orientação médica especializada.




